Tinga fala da relação jogador x empresário

"Tem jogador que dá dois chutes certos e já se acha o craque. Quer a melhor chuteira, brinco, penteado...e se esquecem de jogar futebol".


Em entrevista, Tinga fala sobre a relação jogador x empresário: "Os caras estão esquecendo de jogar futebol"

Aos 34 anos, volante do Cruzeiro diz que "não teria estômago" para trabalhar nesse mercado

— Os caras estão esquecendo de jogar futebol, estão saindo do foco. Não sei dizer se essa geração é preguiçosa, mas o mercado proporciona essa bajulação toda. Não penso em trabalhar com isso. Eu não teria estômago para ver um guri de 15 anos me exigir carro ou dinheiro.

A frase é do volante Tinga, que, calejado pela experiência dos 34 anos — mais de 15 como profissional —, fala com a propriedade de quem viveu duas fases distintas do esporte: presenciou a cordialidade de um empresário que o indicava a não jogar em países como Ucrânia ou Rússia, distantes do futebol ocidental, e, atualmente, vê os meninos provarem da fácil aproximação a qualquer agente. E qualquer mercado. O futebol virou a tenda da fruta que mais vende — e que, antes, não vendia tanto assim.

Formado no Grêmio, consagrado no Inter, ídolo na Alemanha, atualmente no Cruzeiro, Tinga é um exemplo de jogador formado à moda antiga. Mantém ligação com o mesmo empresário há mais de uma década. E afirma que, hoje, trabalha-se mais o espaço para o futuro jogador do que o seu futebol em si.

— O resumo de tudo é jogar bola. Ninguém quer saber como e por que o Neymar se tornou esse grande jogador. Querem saber quem é o empresário dele. É uma reclamação constante entre muitos jovens jogadores: "não joguei porque meu empresário não era bom". Mas como? O empresário vai entrar em campo e jogar? — questiona.

O futebol pode ainda não ter perdido a sua essência, mas mudou. Fora de campo, as grandes transações, as negociações exorbitantes e as cifras astronômicas atestam. As folhas de pagamento para as categorias de base, também.

— Na minha época, falava-se em ajuda de custo. Quando o clube gastava com uma viagem de avião com o time júnior ou juvenil, era muito necessário — lembra.

Promiscuidade

Antes de jogar, o garoto exige uma chuteira de marca. Antes de marcar gols, quer dinheiro. Antes de ir à Seleção, deseja ser tachado de craque. Convive com a estética como uma causa, não como uma consequência. Fadado ao sucesso, abraça o fracasso.

— Para o jogador, é mais fácil. É um caminho para não fazer outra coisa. O empresário não sabe como fazer, mas dá um carro para o pai do menino de 14 anos e "se garante". Não entende de futebol, mas, se o guri estourar, está "garantido". E até entendo. Na minha época, se alguém viesse me tirar da Restinga e me desse uma casa, ou um carro para a minha mãe, eu iria pegar — admite.

A atual forma de aproximação e negociação dos empresários com os jogadores mais jovens acarreta, naturalmente, em brincadeiras dos mais velhos. No Inter, era comum. Tinga conta as ironias que direcionava — e ainda direciona — aos garotos, apelidados de "jogadores I-30", que pedem para que ele seja seu empresário.

— Quando eles me pedem um apartamento, eu digo: "te dou, mas vou te tirar um prédio". Quando me pedem um carro, eu digo que vou tirar uma frota. No Inter, brincávamos muito que eles são os "jogadores i30" (analogia ao carro Hyundai i30) porque queriam e pediam isso aos empresários — conclui, antes de elogiar os dirigentes do Grêmio com quem trabalhou:

— A visão era de diretor, não de empresário. Eles queiram que o jogador jogasse bola e, assim, ter a felicidade de lançar um novo profissional.

Futura decepção

O que acontece é um processo nem sempre recíproco. O empresário que provê, deseja lucrar. Mas uma promessa de 16 anos não necessariamente irá se tornar um craque aos 20 ou 25 anos. Poderá ser apenas um bom jogador, dotado de certa técnica — incapaz de aparecer em grandes clubes. Às vezes, por culpa do destino ou da sorte. Ou, na cabeça de muitos jovens boleiros, devido à falta de um bom empresário.

Há casos de jogadores que tiveram a sua "maior história" na adolescência. Ainda amadores, aos 16, 17 anos, assinaram contratos com grandes clubes e recebiam, por exemplo, R$ 10 mil. Segundo Tinga, o compromisso fez com que esse jogador se acomodasse tanto que não conseguiu mais reiterar boas atuações. Aos 25, atua na Série C e ganha um salário de, no máximo, R$ 3 mil.

— Até os 28 anos, os jogadores estão aprendendo. Se perderem o foco, não aprendem mais. Já vi empresário reclamar de jogador de 15 anos que queria muito ter uma Nike igual à do Neymar ou à Adidas do Messi. Ué, então joga que nem o Neymar e o Messi. Acho que falta esse foco — diz o volante.

A questão: como se manter distante — ou pelo menos alerta — às investidas do empresariado "fajuto" na vida de um jovem e futuro atleta profissional? De acordo com Tinga, tudo se resume em relacionamento. É preciso conhecê-lo, ter intimidade. E o clube, neste sentido, deve assessorar o jogador.

— Às vezes, é culpa do pai, da estrutura familiar. Se um empresário bem-sucedido pode ajudar, legal. Mas, hoje, os pais cobram dos empresários — protesta.



Preencha o formulário abaixo para indicar essa página







Patrocínios

  • Dzigual
  • Level11
  • Ciclus
  • Momfort
  • Daqui - Portal de Notícias
  • ADC FLorianopolis - FUTSAL